Um dia descobri que perto do sítio onde costumo sentar-me existe um cemitério escondido, numas grutas. Esse cemitério é usado por freiras que aí enterram os despojos mortais das suas irmãs. Uma vez cheguei pouco antes de entardecer e seis delas, apressadas, carregavam um caixão através do areal. Escondi-me atrás de uma rocha e observei com cuidado as suas expressões, mas não pareciam de pesar ou dor, antes ansiosas e inquietas. Isso intrigou-me, e quando elas saíram da gruta rapidamente, olhando constantemente para trás, eu voltei lá, e investiguei o local.
As grutas eram muito maiores do que aparentavam ser de fora, e, no total, calculo que deviam albergar cerca de cinqüenta esquifes, de diferentes tamanhos, tipos de madeira e épocas. Havia ramos de flores já secas perto de todos eles, mas nada junto dum outro, colocado muito à parte, no fundo da gruta. Percebi imediatamente que era aquele que as freiras tinham vindo depositar e aproximei-me, com certa curiosidade. Numa faixa roxa pregada ao pinho grosseiro, lia-se: "Aqui jaz a Irmã Sem Nome, que viveu e morreu como uma pecadora, e assim desceu à Casa da Morte, sem Cruz e sem Luz, despida da Graça de Deus. Paz à sua alma. Amém".
Não pude conter-me, e fui buscar uns pedaços de madeira a um canto da gruta para que servissem de alavanca para abrir aquele caixão tosco. Quando consegui, já quase de noite, senti-me derramar para dentro daquela mulher que, completamente despida e gelada, fitava-me com os seus olhos verdes sofredores, enquanto me dizia, baixinho:
- Arranca-me isto do coração, arranca-me isto do coração, que me dói tanto, ai, tanto...
A voz extinguiu-se num gemido abafado de dor, e ela cerrou os olhos um instante. Eu arranquei-lhe a estaca afiada do peito, e sorri-lhe. Passado um pouco, ela já conseguia levantar-se, e abraçamo-nos, sem uma palavra. Saímos da gruta mais tarde, quando a Noite já ia alta, e dançamos lentamente, em frente ao mar, molhadas pelas ondas, como se fossemos bonecas de porcelana que, imóveis e sisudas durante o dia, de madrugada se transformam em bailarinas, animadas pelos raios de luar.
Abracei-me a ela, e deixamo-nos levar pelas ondas, até ao fundo do oceano. A ferida dela ainda sangrava, de quando em quando, e ela lambia as minhas, para que pudéssemos sarar juntas.
Faço deste lugar a minha morada por longas temporadas. Depois de ter encontrado este cemitério ao pé do mar nunca mais fiquei sozinha, e já tenho alguém com quem falar através do silêncio.
Trecho do capítulo Um Cemitério ao Pé do Mar-"Diário de Pesadelos" (Matilda Neves)
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